29/02/2004
O que faz a diferença

 

Mauro Halfeld

 

 

 

Você já deve ter me ouvido contar, brincando, sobre a possibilidade de pegar dinheiro emprestado com o cunhado em um momento de dificuldade. Em São Paulo, soube da história de um taxista que nunca teve parentes ricos. Quem lhe deu um grande empurrão na vida foram dois clientes que acreditaram no seu trabalho.

João Rodrigues chegou da pequena Ipubi, em Pernambuco, há vinte e três anos. Trabalhou como segurança, motoboy e eletricista; teve até uma pequena lanchonete que não deu certo. Casado havia oito anos, um filho, estava se virando como manobrista de um flat na região do Itaim. Ganhava apenas um salário mínimo e pagava R$ 300,00 de aluguel. Na verdade, vivia de gorjetas.

Rufino, um amigo taxista que fazia ponto em frente ao hotel, deu- lhe um bom conselho: fazer um curso para taxista. Os R$ 100,00 da inscrição foram emprestados pelo amigo. Depois do curso, passou três meses ligando para frotas de táxis em busca de trabalho, até que surgiu a possibilidade de trabalhar parte do dia para um colega. Problema: o táxi era velho e não tinha ar condicionado, e era verão. João aceitou.

O amigo Rufino deu-lhe mais dicas: “crie uma diferença para os clientes: ande sempre de gravata, barba bem feita, caneta e papel a disposição do cliente, e faça cartões com o número de seu telefone”. E um detalhe importante: “não tenha preguiça, sempre desça do carro e abra a porta. Facilite ao máximo a vida do cliente”.

A sorte sorriu para o João no segundo dia. Um executivo estrangeiro contratou-o pelo dia inteiro. O calor maltratou o cliente, mas a simpatia e a dedicação do motorista conquistou-o por completo. No final do dia, R$ 380,00 no bolso, já descontada a diária cobrada pelo dono do carro.

Um mês depois, João conheceu um professor de marketing de uma renomada escola de administração de empresas. O novo cliente encantou-se com o atendimento, apesar do carro velho, e sugeriu um plano para comprar um novo. Ia precisar de R$ 17.000,00. Impossível...

O professor ofereceu-lhe R$ 9.000,00 emprestados, sem juros. Uma famosa atriz colaborou com R$ 8.000,00. Fiquei curioso: “João, não dá pra acreditar! Como é que dois clientes que mal o conheciam aceitaram emprestar todo esse dinheiro, e sem cobrar juros? Qual foi o segredo?”

Pontualidade, respondeu-me com firmeza. Quando o professor precisava viajar e requisitava o taxi às 5 da manhã, João chegava às 4:30. Quando a atriz marcava uma corrida ao teatro às 6 da tarde, vinte minutos antes lá estava o João. Pontualidade é sinônimo de confiabilidade, de credibilidade. Pagou tudo que devia em quinze meses. As prestações eram menores do que o aluguel do carro velho.

Oito anos depois, João tem quatro filhos, casa própria, um Toyota com ar condicionado e câmbio automático, e não sabe o que é crise. São tantos clientes que ligam agendando corridas, que não é fácil encontrar o João em seu ponto na rua Jerônimo da Veiga. Lógico que os dois primeiros patrocinadores são seus clientes preferenciais.

A fórmula de trabalho é interessante: sempre estuda o trajeto com antecedência e examina qual é o caminho mais rápido. Em caso de dúvida, liga para o lugar de destino para que não haja enganos. Preguiça e desorganização não fazem parte do dicionário de João. Por isso ele tem sorte.

Este ainda é um país de oportunidades para quem sabe fazer um pouco diferente e bem feito. Vale experimentar!